terça-feira, 8 de maio de 2012

Um texto para alguém mais que especialmente especial.



Maria Angélica Cardoso Pereira


Faz um mês que aconteceu e eu até agora não disse nada. Dia 07 de abril, Lollapalooza em sua versão brasileira. O feriado tinha tudo para ser extremamente feliz. Foo Fighters, páscoa e almoço em família no domingo. Porém havia algo, uma coisa que trouxe, ao contrário, extremo desconsolo para todos nós: meus pais, irmão, tios e avós, e conhecidos.


Em tal dia, 07 de abril, por volta das 18h, enquanto eu aguardava que se iniciasse o show da Joan Jett, uma pessoa extremamente especial faleceu. Seu nome era Maria Angélica, e a ela eu dedico este texto com todas suas palavras, bem como todos os momentos nos quais senti sua ausência desde então. Sei que levou tempo para que eu escrevesse, talvez por não saber ou entender muito bem aquilo que deveria ser dito, ou ainda apenas para evitar de tocar no vazio que ela deixou em algum lugar ao partir.


Pois bem, Maria Angélica faleceu aos 86 anos de idade. Fora mãe de três filhos e avó de quase dez neto. Na década de noventa, foi bisavó de uma menina e de um menino: eu e meu irmão. Pouco tempo, muito pouco tempo antes de nos deixar, foi bisavó por mais duas vezes. Provavelmente, se eu quisesse escrever um livro sobre sua vida, poderia, muito embora minha mente imatura de 19 anos não permita nem de longe que eu obtenha ideia das coisas pelas quais Maria Angélica passou no decorrer dos anos de sua  longa vida. Mas que teve história para contar e coisas a ensinar, não tenho a menor dúvida. Eram coisas boas e ensinou bem. Sei disso. Qualquer um que conheça minha família irá entender. 


É quase engraçada a forma com que enquanto escrevo esse texto, me vem à mente desvendar os mistérios da vida de Maria Angélica. Quais segredos guardaria alguém que nasceu em 1926? O pensamento é instigador. Com muito orgulho, digo que minha bisavó aprendeu com a vida aquilo que tentaram me ensinar na escola. Muito pequena, presenciou a Crise de 29, depois a Revolução de 30, Segunda Guerra Mundial, Guerra Fria, o nascimento e a queda do Muro de Berlim. Provavelmente assistiu nos cinemas a maior parte dos filmes de Charles Chaplin, presenciou orgulhosamente a participação de seus filhos em busca de um país melhor nos tempos de ditadura, sempre tentando ensiná-los a dar o melhor de si, sempre encorajando a seguir em frente e alimentando com força, fé em suas crenças, dignidade e respeito. Não há palavra no mundo que explique o sentimento de orgulho e carinho que guardo por minha sempre querida bisavó!


E todas as vezes em que me lembro do tempo que passamos juntas, todas as vezes em que agora penso em tudo aquilo que deixei de perguntar a ela, tudo aquilo que deixei de aprender com ela, todo o tanto que dela deixei de conhecer, bem como todo o carinho de bisneta que talvez eu tenha deixado de dar, meu coração parece bater de um jeito estranho dentro do peito, meio como um descompasso, e acho que o nome disso tudo só pode ser saudade. Talvez seja essa uma das saudades mais profundas que já senti na vida, talvez a mais profunda, talvez uma das únicas verdadeiramente reais.


Nos seus últimos dias de vida, quando ia a visitar aos finais de semana, me lembro dela com ternura e afeto. Como será possível que uma pessoa prestes a deixar o mundo humano e com plena consciência de sua situação, com plena consciência da fase pela qual estava prestes adentrar, pudesse continuar a viver com tanta tranquilidade, tanta coerência e lucidez? Não acho que eu seria capaz. E isto aumenta ainda mais os meus motivos de orgulho.


Se existe um dia que para sempre lembrarei com felicidade por ser quem sou, tal dia foi quando, pela penúltima vez em que a vi, sua ajudante, enquanto estávamos sentadas observando-a dormir, contou-me de como ela sempre falava sobre mim coisas boas com orgulho e alegria. Mal poderia ela imaginar que verdadeira alegria foi aquela que senti quando fiquei ciente de seu carinho. E tal alegria, digo mais uma vez, guardarei eternamente.


Não sei bem se essas poucas palavras são dignas da grandeza da pessoa que foi minha bisavó, embora certamente compreenda que jamais chegarão perto de fazer jus a sua história. Mesmo assim, constituem-se de todos meus sentimentos mais sinceros. E de tal modo, após pouco mais de um mês de atraso, reflexão e saudades, deixo meu mais feliz adeus. Feliz sim, pois despedidas como esta não devem ser coisa triste. Se há algo que minha bisavó mereça, tal algo nada mais é que felicidade. Alegria, por ser exatamente o que ela sempre transmitiu a todas pessoas que viviam ao seu redor. Assim sempre me lembrarei dela: um par de olhos azuis, um sorriso no rosto, e um arsenal de grandes histórias de uma vida inteira para contar.


Aonde quer que esteja, minha avó querida, espero que agora escute atentamente ao que por último irei aqui dizer: para sempre amarei e lembrarei de você. 

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